quinta-feira, 21 de junho de 2012

Hermetismo

O Hermetismo ensina que existe uma Entidade transcendental que reúne todo o Universo, com todos os seres e elementos, incluindo os anjos. Esta Entidade Suprema ou Maior pode ser chamada de 'Deus', 'Tudo' ou 'Único'.
Surgiu ao lado do Gnosticismo, Neoplatonismo e Cristianismo primitivo, caracterizado por uma resistência ao domínio, seja da racionalidade pura ou da fé dogmática.
O absoluto é o foco central do Hermetismo, e em razão disto, fica difícil classificá-lo entre as crenças teístas tradicionais.
O símbolo do Hermetismo é o caduceu, bastão de ouro, com duas serpentes defrontadas e enroscadas em torno dele, sob um par de asas em que se termina a extremidade superior. Diz a Mitologia, que pertencia a Apolo e foi trocado por uma flauta, passando a ser o símbolo de Hermes ou Mercúrio, como emissário dos deuses, protetor dos rebanhos e condutor das almas.
Hermetismo é o conjunto de doutrinas e filosofia oculta e de magia, inspirados em escritos (tratados) atribuídos a Hermes Trismegisto, que significa 'Hermes Três Vezes Grande', uma divindade mitológica sincrética, pois também é identificado com o deus egípcio Toth, que simboliza a lógica organizada do universo.  São tratados que contêm os princípios teóricos e filosóficos da Hermética. Dentre as obras mais importantes estão 'Corpus Hermeticum' e 'Tabula Smaragdina'.
'Corpus Hermeticum', como é conhecido o conjunto de 17 livros, foi escrito entre os séculos segundo e terceiro da nossa era. Perdeu-se grande parte dos originais gregos e destes, só se conhece a tradução latina. São apresentados como uma série de diálogos entre Hermes e vários outros personagens. Fala da bondade de Deus, da purificação do espírito e defende práticas religiosas pagãs, como a veneração de imagens. No primeiro livro está registrado um diálogo entre Hermes e Poimandres (Deus ou Nous), sendo o primeiro contato entre eles. Poimandres revela a Hermes os segredos do Universo. Primeiro, apenas por um ato de vontade, ele criou o Cosmos, separando os quatro elementos básicos: Fogo, Água, Ar e Terra, que foram ordenados em sete céus, que passaram a orbitar em círculos e governam o Destino.
Por outro simples ato de vontade divina, o Verbo apareceu do nada, para materializar os elementos. Deus então fez os círculos girarem e de suas matérias surgiram as criaturas. A terra foi separada da água, e os animais (exceto o homem) brotaram da terra. Deus então criou à sua imagem, o homem andrógino e colocou-o sobre a terra, dando-lhe hegemonia sobre tudo. O homem subiu no alto de um monte para poder melhor observar toda a criação de Deus, a Natureza, e ficou deslumbrado. Depois, vendo sua imagem refletida na água apaixonou-se por si mesmo, tornando-se assim  escravo das suas limitações. Ficou mudo, pois o Verbo o abandonou. O homem então se transformou em duas entidades: um corpo mortal e um espírito imortal.
No Livro IX do 'Corpus Hermeticum' Deus (Nous) explica que a origem das coisas boas e más, depende com quem o homem faz alianças se Deus ou com os demônios. Os demônios, mais sorrateiros e acessíveis,  são os causadores do adultério, do assassinato, da violência doméstica, dos sacrilégios, da impiedade, do suicídio etc.
Menciona o livro,  que entre as coisas  consideradas extremamente pecaminosas e que mais ofendem a Deus, é o homem  concentrar sua vida em coisas materiais.
É um agravo a Deus e para si mesmo o homem não ter 'filhos'. Neste contexto, 'filho' não significa apenas descendente, mas também as criações do homem. Daí adveio a conclusão  por que Deus é Pai, pois, é o criador de todas as coisas. O bem supremo é o 'Poder Criador'.
Anteriormente, escritores e filósofos cristãos, como Lactâncio, Agostinho, Giordano Bruno e Marsilio Ficino, admitiam que Hermes Trismegisto fosse um sábio e 'profeta' pagão, que prenunciou o Cristianismo. Acreditavam em uma 'Prisca Theologia', normas religiosas que foram passadas ao homem por Deus na Antiguidade. Alguns destes autores apropriaram-se de ensinamentos da Hermética com o propósito de provar a verdade do Cristianismo. Ficou  muito entrelaçado o Hermetismo e o Cristianismo.
Ficino em seu livro 'Argumentum', descreve a genealogia da sabedoria,  que referindo-se a 'Prisca Theologia' elenca seis 'personagens':
1. Mercúrio (Hermes) Trismegistos.
2. Orfeu.
3. Aglaophemus (mestre órfico de Pitágoras).
4. Pitágoras.
5. Filolau.
6. Platão.
No período entre o final da Idade Média e o Renascimento, foram criadas algumas sociedades ocultas com princípios herméticos. Porém, foi no limiar do século XIX que elas se multiplicaram sobremaneira, sendo o Hermetismo praticado em grupos, como a Ordem Hermética da Aurora Dourada, Ordem do Aurum Solis etc.
Quando o Hermetismo passou a ser proibido pela igreja cristã foi praticado na clandestinidade, em diversas sociedades dedicadas à sua filosofia. A tradição esotérica ocidental está impregnada com o Hermetismo. Estudiosos, como Oratio Giovanni Pico della Mirandola, que tentou sincretizar a Cabala judaica (que ele acreditava que foi recebida por Moisés no Monte Sinai) com a mística cristã, para tornar o Hermetismo melhor compreendido pelos europeus do Renascimento.

No período compreendido entre a dissolução do Império Romano e o século XII o Hermetismo foi praticamente esquecido. Alan de Lille (1128-1203) empregou elementos de cosmogonia hermética na sua obra 'Summa Quoniam Homines et Contra Haereticus' onde ele exalta o conhecimento do 'sábio egípcio' Hermes sobre a unidade de Deus.
Em meados do século XIII, Roger Bacon nas suas obras 'Opus Maius' e 'Metaphysica' (ambas publicadas em 1267), mostrou simpatia pelas ideias herméticas. 
O Hermetismo voltou a ser moda na Europa em 1460. Cósimo de Médici, o grande mecenas de Florença, encarregou Ficino de criar uma academia platônica, coletando todas as obras de Platão traduzidas em latim que pudesse encontrar. A tarefa foi de conhecimento dos intelectuais da época. Foi aí que o monge Leonardo de Pistoia (pseudônimo de Leonardo Alberti), trouxe até Cósimo de Médici, alguns manuscritos em grego, com grande parte do 'Corpus Hermeticus' (que nada tinha diretamente a ver com Platão), impressionando bastante o culto mecenas. Estes manuscritos foram traduzidos para o latim por Marsilio Ficino e impressos em Treviso em 1471, com o pomposo título de 'Mercurii Trismegisti Pimander Liber de Potestate et Sapientia Dei', sendo então divulgado.

Mais tarde, o filólogo suíço Isaac Casuabon, estudando o texto concluiu que eles podem ser datados por volta dos séculos II e III, e não era obra de nenhum sacerdote egípcio.            
Da 'Tabula Smaragdina', também não é conhecido o original em grego. A versão conhecida mais antiga (datada de 934) está em árabe, fazendo conjunto com outros tratados reunidos num manual de alquimia com o nome de 'Livro dos Segredos da Criação'. Foi traduzido para o latim por Hugo Sanctelliensis, bispo espanhol.
A parte mais conhecido pelos ocultistas é o aforismo 'como acima está embaixo', que grosso modo, significa: o que está embaixo corresponde o que está em cima, para realizar o milagre das coisas e vice-versa.
Também se refere às três partes da sabedoria universal: Alquimia, Astrologia e Teurgia.
A Alquimia (operação do Sol) não é simplesmente a transformação de chumbo em ouro, trata-se da investigação sobre a vida espiritual, ou a existência material, através do conhecimento dos mistérios do nascimento, morte e ressurreição. Segundo a doutrina, as várias etapas da destilação e da fermentação são aspectos destes mistérios.
A Astrologia (operação da Lua). Segundo os escritos de Hermes foi Zoroastro quem descobriu a Astrologia e ensinou ao homem. Na doutrina hermética o movimento dos astros têm significado maior do que o entendido pelas leis da física. A Astrologia tem influências sobre a Terra, mas não tem o poder de determinar as ações humanas. A sabedoria está em saber administrar estas influências.
A Teurgia (operação das Estrelas). É a sabedoria de saber lidar com a Magia. Existem dois tipos de Magia, a Magia Negra (aliança com espíritos malignos, os demônios) e Magia ou Teurgia Divina (aliança com Deus e os anjos, seus mensageiros).
A filosofia hermética desenvolveu e modificou muito desde que foi anunciada. Existiram sempre organizações que se intitulavam ordens ou sociedades herméticas e passaram a estudar os tratados antigos. Algumas se destacaram como a Ordem dos Templários, a Maçonaria, a Ordem Rosacruz, e mais recentemente (surgiu na década de 1880), a Ordem Hermética da Aurora Dourada.
No final do século XIX foi escrito o livro 'Caibalion' (publicado em 1912) por 'três iniciados' que registraram as 'Sete Leis do Hermetismo'. Muitos achavam que o livro era mais antigo. A palavra 'Caibalion' seria um derivado grego da mesma raiz da palavra Cabala, que em hebraico significa "recepção".
O livro descreve as seguintes leis herméticas:
 1. Lei do Mentalismo: "O Todo é Mente; o Universo é mental.”.
 2. Lei da Correspondência: "o que está fora é o reflexo do que está dentro". Assim, as atitudes das pessoas ao redor de cada um e as circunstâncias apresentadas, não são mais que uma imagem exterior daquilo que vai dentro de cada indivíduo.
 3. Lei da Vibração: "Nada está parado, tudo se move, tudo vibra".
 4. Lei da Polaridade: "Tudo é duplo, tudo tem dois polos, tudo tem o seu oposto”. O igual e o desigual são a mesma coisa. Os extremos se tocam. Todas as verdades são meias-verdades. Todos os paradoxos podem ser reconciliados.
 5. Lei do Ritmo: "Tudo tem fluxo e refluxo, tudo tem suas marés, tudo sobe e desce, o ritmo é a compensação".
 6. Lei do Gênero: "O gênero está em tudo: tudo tem seus princípios masculino e feminino, o gênero manifesta-se em todos os planos da criação".
 7. Lei da Causa e Efeito: "Toda causa tem seu efeito, todo o efeito tem sua causa, existem muitos planos de causalidade, mas nenhum escapa à Lei".
Afirma ainda, que Hermetismo consiste, de forma sincrética, no estudo e prática da evolução e expansão da consciência humana para alcançar à Consciência Divina, penetrando assim nos mais profundos mistérios da Criação, o que ficou conhecido como Iniciação e Iluminação.
Em 1945, em Nag Hammad, próximo ao Mar Morto, junto com os rolos de pergaminho com cópias de livros da Bíblia, fui encontrado manuscritos de partes do 'Corpus Hermeticum'. Eram trechos do diálogo entre Asclépio e Hermes. Esta descoberta comprova a influência do Hermetismo na doutrina dos primitivos cristãos.
O Rosacrucianismo é um movimento hermético de conotação cristã, que teve origem no século XV. Consiste num grupo secreto interno e um grupo maior externo, sob direção do grupo secreto interno.
Adota como símbolo a rosa (a alma, o espírito) e a cruz (corpo de quatro elementos), que significa o espírito humano crucificado no plano material.
Seu sistema hierárquico é semelhante ao da Maçonaria, adotando a graduação dos membros, que ao subir de grau têm acesso a mais conhecimentos.
Para o Rosacruz, existem três etapas no desenvolvimento  espiritual: a Filosofia, a Cabala e a Magia Divina (Teurgia).

Fonte: Stravaganza

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