quinta-feira, 18 de maio de 2017

Paititi, a cidade Inca perdida da Amazônia


Um americano, um francês, um peruano e um brasileiro estavam no meio da Amazônia peruana procurando ruínas desconhecidas. Parece o início de uma piada de salão, mas é a premissa da aventura de uma equipe de exploradores que ocorreu em julho do ano passado para encontrar pistas que levassem à descoberta de Paititi (conhecida também como El Dorado), uma cidade da civilização inca jamais encontrada. 

A expedição do grupo multinacional por uma região a 150 quilômetros a noroeste de Cusco contou com 20 pessoas e durou 13 dias. Foi liderada por Javier Pazo e Benancio Paravecino, ambos da Paykikin Exploraciones Peru, uma associação franco-peruana.

"Já temos vários pontos que mostram indícios e sinais de uma rota para Paititi. Mas o avanço é pouco a pouco", disse Pazo.

Por cerca de meio milênio, centenas de pessoas procuraram sem sucesso a mesma coisa que o grupo agora busca.

Os exploradores reconhecem a dificuldade e comentam sobre o assunto sem citar localizações exatas. Falam apenas em pistas e suspeitas de rotas que podem levar à cidade perdida.


Os avanços são difíceis pois trata-se de uma região de selva intocada e necessidade de autorização do governo do Peru para ter acesso ao local - dentro do parque de Megantoni.

Ainda hoje há regiões da Amazônia que são desconhecidas, onde pouco valem imagens por satélites ou sobrevoos de helicóptero. E mesmo nos locais conhecidos as evidências físicas do passado podem estar soterradas por séculos de cobertura vegetal.

Outro integrante da equipe era Gregory Deyermenjian, um psicólogo americano que participou da expedição como parceiro. Deyermenjian é um dos exploradores mais experientes do mundo e vem estudando e visitando a região desde os anos 80.

"Sempre quando vou partir para uma nova investigação me dizem 'espero que você encontre dessa vez'. Mas o que estou fazendo é investigar as áreas associados com a lenda de Paititi", disse.



​Na prática, o grupo está seguindo o chamado "Caminho de Pedra", uma rota de fuga que levaria a um refúgio quase inacessível usado pelos incas para se protegerem do jugo dos colonizadores espanhóis. Investigam sobretudo aonde a rota e as estradas vicinais podem levar.

"Não é uma estrada pavimentada, mas marcas com pedras que, embora não contínuas, indicam uma rota. O que eu sei é que na área da cordilheira de Pantiacolla há muitas regiões não documentadas e está associada na cabeça dos nativos com a lenda de Paititi", disse o veterano.

Depois de tantos anos de pesquisa, o explorador acredita na possibilidade de descobrir um grande sítio arqueológico é muito pequena — mas existe. "Se encontrar Paititi fosse o objetivo principal de alguém, então essa pessoa estaria sempre frustrada".


Contudo, as informações de localização são vagas, tanto nos documentos históricos quantoa nos relatos da tradição oral das populações nativas. Existem interpretações distintas da origem da palavra e mesmo da região onde pode estar Paititi.

O arqueólogo finlandês Martti Parssinen, professor do Instituto Ibero-Americano da Universidade de Helsinque, acredita que Paititi era originalmente um rio e uma província de alguma maneira relacionada a lagos inundados - daí dificuldade em encontrá-la.

"Boa parte das evidências históricas apontam que a cidade estava situada em algum lugar ao norte de Mojos e a sudeste de Rurrenabaque", disse Parssinen, referindo-se a duas regiões na amazônia boliviana. Outras hipóteses falam em Paraguai e até na Amazônia brasileira.


Para além dos desafios burocráticos e teóricos, existem os desafios humanos. Se há algo de romântico na aventura de caçar indícios incas no meio da amazônia, existem o realismo da jornada estafante e do limite do próprio corpo.

São regiões distantes de zonas urbanas e de difícil acesso. O fotógrafo gaúcho Danilo Christidis, também membro da Paykikin, acompanhou a jornada para documentá-la.

Foi sua segunda expedição. Na primeira, em 2011, contraiu tifo e perdeu 15kg.



​Dessa vez, tudo transcorreu bem, mas não sem dificuldades. Christidis conta que caminhavam de quatro a sete horas por dia em meio à mata úmida e fechada.

A marcha começava ao nascer do dia e acabava, por segurança, antes da chegada da noite, numa jornada que partiu dos 1,2 mil metros de altitude e chegou ao topo de uma cordilheira, a quase 4 mil metros.

"Tem um determinado momento que não é o teu corpo que te carrega. A pessoa já está tão esgotada, que é a tua cabeça que te leva. É como um mantra", disse o fotógrafo.

O próprio terreno muda com a altitude: a floresta vai ficando mais fria e úmida. "Teve um dia que acampamos em um lugar que parecia que estávamos no meio da água. O chão parecia uma esponja."


Outro objetivo era mandar um drone para passar do ponto mais distante do Caminho de Pedra já alcançado a pé e fazê-lo sobrevoar o vale do Rio Tímpia, para colher pistas de qual rota seguir numa próxima expedição.

O drone foi capaz de voar 40 quilômetros e chegar a um lago quadrado ainda desconhecido, mas por um problema os registros fotográficos ainda não puderam ser extraídos da máquina.

O responsável pelo equipamento foi engenheiro e fundador da Paykikin, Nicolas Chapon, um francês de 32 anos que se apaixonou pela selva peruana aos 10 anos depois de assistir o filme Aguirre, a Cólera dos Deuses.



Para Chapon, a descoberta mais importante foi um desvio perpendicular ao Caminho de Pedra. A alteração é sinalizada por uma pequena casa na qual os incas que passavam pela região podiam descansar antes de seguir viagem.

As próximas expedições devem seguir a nova direção. "Nosso objetivo é encontrar Paititi, mas também é preciso se perguntar o que é Paititi. Talvez seja um só lugar, talvez sejam muitos locais pequenos. Não sabemos. Estamos buscando cientificamente", disse Chapon.

Já Pazo, o líder peruano, disse sua motivação é uma questão de orgulho: "Quero encontrar o que foi feito pelos meus antepassados para que o mundo veja a grandeza do nosso passado arqueológico".


Fonte: BBC Brasil

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