terça-feira, 11 de junho de 2013

A segunda chance

Foram tempos difíceis. Uma escolha que poderia mudar tudo. Talvez mesmo até a Vida pela Morte. Mas Deus tinha outros planos...

No dia 04 de Dezembro de 2009 dei entrada num renomado Hospital na Zona Norte do Rio, para realizar uma cirurgia que mudaria toda minha vida. Esta data jamais será esquecida, por tudo o que ocorreu após aquele dia. E depois da cirurgia, tudo mudou, inclusive meus conceitos de Vida e Morte. 

Está pronto pra acompanhar sem se deixar abalar pelo que vai ler? Vai realizar ou conhece algum parente ou familiar que pretende realizar a cirurgia do estômago? Se não tens preparo psicológico forte, recomendo que não leia daqui por diante. Minha intenção não é desmotivar ninguém, mas há pessoas que se sensibilizam por coisas mínimas. E ficam muito, muito assustadas e impressionadas. Se for o seu caso, sugiro que pare por aqui e  navegue por outros sites, vá ver TV, ou outra atividade. Você foi avisado.

Muitos familiares e amigos me julgaram louco e precipitado por tentar emagrecer através de uma cirurgia de redução de estômago, conhecida também como cirurgia bariátrica. Realmente é uma medida drástica, devo concordar. 

De caminhadas até pedaladas de bicicleta diariamente, eu tentei. Chás, simpatias, dietas então. Mas nada disso adiantava. O negócio mesmo seria uma reeducação alimentar. Mas e a fome? deixava? 
Desde adolescente, por volta dos meus 14 anos, meu pai me matriculou numa academia, onde pratiquei Karatê (estilo Shoto-Kan) pois ele gostava muito de artes marciais, e sonhava que um dia seu filho pudesse ser um grande campeão, nacional ou mundial. O sonho dele não se realizou, contudo, ele ficou bastante satisfeito por acompanhar a ascensão de seu filho até a faixa preta, que o deixou muito orgulhoso.

Nessa época, eu me achava magro demais, a ponto de querer me tratar com psicólogos por conta disso. De perfil, me achava uma folha de papel. Mas era coisa da minha cabeça mesmo. Se eu imaginasse como seria meu futuro, jamais pensaria daquela forma. Eu pesava por volta dos 77 Kg.

Em 1991, eu abandonei o Karatê. Tinha coisas mais importantes como mais atenção aos estudos e trabalho.
O tempo passou, e em 2009 já contava com 110 Kg. o mais interessante é que ninguem me achava  gordo, no sentido literal da palavra. Como sou alto, a imagem era mais de "massa sovada", encorpada. o tipo "maçudo". Mas o que diz é o peso na balança. Então, decidi pela cirurgia. O médico, contudo, informou que eu não havia atingido o peso ideal para a cirurgia, só haveria exceção no caso de suspeita de doneças correlacionadas, como Diabetes e Pressão Alta. E os exames de sangue indicavam isso.

Após a realização de todos os exames necessários (foram três meses de exames) a data da cirurgia foi marcada, e no dia escolhido, lá estava eu, internado pela segunda vez no hospital (a primeira foi por conta de uma esofagoplastia em 2005). A cirurgia estava marcada para 12:30. Às 11:00, já no quarto enquanto esperava, eu meditava se desistiria ou não. Ainda havia tempo. Mas como disse um dia o imperador Julio César: Alea jacta est! (A Sorte está lançada). Vamos em frente.


A cirurgia em si correu bem. O método foi o de Fobi-Capella. O médico optou por realizar pelo método tradicional, cirurgia aberta. Teve a colocação de um anel de silicone. Fiquei no CTI por dois dias e depois fui para o quarto. Estava com um dreno no lado esquerdo do abdome, que tinha a finalidade de expulsar as secreções internas até a cicatrização do local. Mas algo estranho aconteceu. No retorno ao consultório do médico, 1 semana após a alta, para a retirada do dreno, o mesmo deveria conter apenas alguns mililitros (1 a 5) de secreção sanguinolenta. Mas o meu media cerca de 75 ml e de coloração café com leite. O médico analisou o cheiro, desconfiou, pensou e então disse que eu deveria retornar ao hospital, pois não era normal aquela quantidade de resíduos. Dalí em diante, minha peregrinação e sofrimento no hospital começaram.


Duas semanas após minha alta lá estava eu novamente no hospital. Desta vez para descobrir o porque de tanta secreção no dreno. Mais uma cirurgia, e foi constatado que um dos pontos havia se rompido, o médico fez uma lavagem geral, limpando tudo por dentro. Fechou novamente. Mas o problema persistiu. O débito da secreção não diminuía. Somente dois dias após o segundo procedimento, através de uma endoscopia digestiva, descobriu-se que surgira uma fístula gastro-gástrica, ou seja, ligando o estômago excluso ao novo. Por conta disso, tive que permanecer com alimentação nasoenteral, com um tubo passando pelo meu nariz e indo direto ao intestino, até o fechamento da fístula. Só que ela não fechava de forma alguma, e depois apareceu uma segunda fístula, mais acima, que levou o médico a realizar uma terceira cirurgia aberta. Tive ainda que me submeter, além da alimentação nasoenteral, a uma dieta parenteral, conhecida como NPT (Nutrição Parenteral Total), que consiste em uma solução ou emulsão composta basicamente por carboidratos, aminoácidos, lipídeos, vitaminas e minerais.


O fato de ter que me submeter à NPT trouxe outro problema:  não podia ficar por mais de 10 dias com ela, pois sempre ocasionava infecção na ponta do catéter que estava em veia profunda. Tive que tomar mais de quatro antibióticos potentes, um inclusive top de linha, para tentar combater as infecções internas. Meus pés e mãos descamaram, os olhos ficaram fundos, não estava com bom aspecto físico. Foi uma luta tremenda de todos enquanto a fístula não fechava. E como não bastasse tudo isso, ainda tive derrame pleural, com retirada de 940 ml de líquido da pleura, que fica abaixo dos pulmões. Tive abcessos. Tive febres constantes. Tremedeiras insuportáveis em todo o corpo, principalmente à noite. Eu já não acreditava mais em recuperação da saúde. Me sentia muito mal. E fazia uma série de perguntas a mim mesmo: por que tudo isso? por que aquela provação? o que fiz de mal a alguem ou alguma coisa para merecer aquilo?

Enfrentei todo esse período de sofrimento por uns quatro meses internado. E como um milagre, após esse tempo, a fístula parecia finalmente diminuir, a ponto de que o médico considerou me dar alta, e fazer os curativos em casa. Fui pra casa com alimentação nasoenteral. Me alimentava com Peptamen. Peptamen é um alimento para situações metabólicas especiais para nutrição enteral, à base de peptídeos e formulado de modo a proporcionar quantidades definidas e adequadas de nutrientes e calorias, em função das necessidades nutricionais diárias de pessoas com problemas de absorção, visando a recuperação do adequado estado nutricional, como no meu caso. O detalhe é fui para casa no sistema Home Care, mas sem enfermeira. Eu mesmo controlava a hora da alimentação, que era enviada pelo plano de saúde à minha casa. Improvisei um abajur para pendurar o alimento, que vinha em sacos de 1 litro.

Bomba de infusão
Em casa havia uma verdadeira parafernália hospitalar: esparadrapos especiais, ataduras, luvas cirúrgicas, e bolsas de colostomia. E ainda tinha que medir o débito da fístula todos os dias. Sempre ficava entre 2 a 4 ml, e não havia necessidade de ficar internado no hospital por conta de um volume tão baixo. 


Estava magro, mas não magricelo. Havia ganho um pouco de peso, já que estava me recuperando. Pesava cerca de 79 Kg. Tudo ia indo bem, até que um dia entalei com um pedacinho de peixe. O detalhe nessa cirurgia é que o operado tem que comer devagar, senão entala mesmo. A colocação do anel dificulta ainda mais a ingestão rápida de alimento. Serve como um moderador.

Liguei para o médico e relatei o ocorrido. Detestava ter que vomitar, mas era preciso, senão o alimento ficava parado lá. Mas além desses episódios de entalos, houve também dores. Muitas dores. E de tanto reclamar com o médico, lá fui eu de novo ao hospital, para exames de endoscopia. Constatou-se que o anel virara sobre si mesmo, fazendo uma forquilha no estomago novo. Isso era a causa das dores. Foram realizadas endoscopias com o intuito de expandir o anel, para uma melhor passagem de alimento. Mas depois de alguns meses, o anel voltava a fechar. 

Indicado pela médica do renomado hospital, que realizava as endoscopias, me inscrevi num evento que ocorreu na UFRJ, uma maratona de Endoscopia Digestiva, onde médicos de renomes do mundo inteiro estiveram presentes, inclusive realizando procedimentos para fechamentos de fístulas, com a aplicação do Surgisis. Este método consiste em um cone de colágeno que é introduzido no trajeto fistuloso, e que servirá de molde e estrutura para que o próprio tecido conectivo do paciente preencha e feche a comunicação anormal causada pela fístula, obturando desta forma todo o trajeto. A maior vantagem deste método é evitar um novo procedimento cirúrgico. 

Infelizmente, os médicos decidiram que no meu caso não precisaria do cone, pois a fistula era pequena e cicatrizaria por si só. Mas o problema não era mais a fístula em si, mas a dor causada pelo anel. E ainda, o médico chegou a conclusão que esse aperto anormal do anel estava impedindo a fístula de fechar completamente. E juntos decidimos que seria necessária uma nova intervenção para retirada do anel. Ressalto que o meu cirurgião não queria realizar tal procedimento, pois já estava tudo sedimentado por dentro, e mexer novamente ali seria altamente complicado. Mas não podia conviver com dor. E fui de volta ao hospital para a quarta cirurgia.

Foi exatamente nesta nova cirurgia que tudo aquilo que eu já havia passado no hospital, retornou. E muito mais. A  cirurgia de retirada do anel foi marcada para a tarde. À noite eu estava no quarto, não fui para o CTI. Mas comecei a sentir algumas dores no abdome. Informei à equipe de plantão, mas demoraram a informar ao meu cirurgião. Somente no dia seguinte, quando ele foi avisado e chegou ao hospital, que se descobriu através de ultrassom, que havia vazado líquido para região do peritônio. E estava inflamando. O médico me mandou às pressas para o Centro Cirúrgico, a fim de realizar uma lavagem intestinal, sendo contabilizado com esse procedimento a quinta cirurgia. Só que desta vez, a coisa ficou séria. Pois foi aí que morri. Literalmente. 


A batalha pela vida havia sido perdida. Foi doloroso para todos que me acompanharam naquela luta. Enfermeiras, Fisioterapeutas, Médicos...Familiares. O guerreiro (como fui chamado) saiu de combate.
Após sucessivas tentativas de reanimação, a equipe cirúrgica "jogou a toalha". A Anestesita virou para o cirurgião e disse: "não dá mais. Ele se foi". Quarenta anos operando sem uma perda de vida. O médico estava transtornado. Mas era um risco mais que possivel. Tantas cirurgias em tão pouco tempo, no mesmo órgão. E uma cirurgia de grande porte. Mas não seria eu que mudaria o currículo cirúrgico do meu médico. Porque após exatos 56 segundos após a parada total de batimentos....eis que o aparelho recomeça a funcionar. Eu estava VIVO!

Contudo, eu não abri os olhos na mesa cirúrgica. Havia retornado dos mortos, sim. Mas fiquei em coma por cinco longos dias. Foi aí que o médico comunicou a família que se alguem dentre eles ou todos, fossem religiosos, seria o momento certo de orar. Pois eu anda estaria lutando pela vida contra a Morte. O médico ainda foi otimista, informou que eu era um guerreiro, tinha vontade de viver, e isso contaria. E já era um bom sinal, pois se havia "ressuscitado" eu teria alguma chance contra a Morte.Mas..o que estaria se passando durante o coma?

De repente, me vi num locla onde não conseguia distinguir qual era. Não havia árvores, cidades, veiculos...nem mesmo pessoas....estava sozinho...e perdido. Onde eu estaria? o que via parecia o cenário típico do conhecido fog londrino, enfumaçado. Caminhava por ele. Foi quando eu percebi que, misteriosamente, o chão abaixo de mim parecia ter acabado...e me vi na beira de um gigantesco penhasco. Pensava: "estou lascado! como vou sair dessa? e cadê todo mundo? me sinto...estranho". Foi aí que algo realmente fantástico aconteceu...

Olhei para o alto, e vi uma grande luz branca, na verdade um feixe de luz, e parecia haver um enorme objeto por trás dessa luz...De repente, ouvi uma voz, mas não vinha da luz...e sim, de trás de mim. Uma voz como metálica...virei-me e o que vi me deixou estupefato. Vi três seres com vestes lindas, límpidas, e reluzentes. Havia luz em volta de todo os seus corpos. Como uma forte aura que resplandecia. Eram mais ou menos da minha estatura, mas não conseguia definir o sexo deles. E isso lá nem  importava naquela altura do campeonato. Só sei que tinham cabelos (pareciam cabelos) compridos, bem longos,  dois platinados e um único dourado. O de cabelos dourados falou comigo, mas sem abrir a boca, como na Telepatia. Revelou-me:
"Você pertence a nós, somos sua família, mas você ainda não está pronto para retornar. Terminará o que tens a cumprir na Terra, só então te levaremos de volta ao seu verdadeiro lar. Vá! e viva sua vida terrena, cumpra seu Destino!"

E como acometido por uma súbita sonolência, lembro-me de "cair" ao solo, que desta vez parecia gramado, mas na verdade, não estava caindo ao solo, e sim de volta ao meu corpo físico. Aos poucos fui recobrando a consciencia....abri os olhos...vi que estava no Hospital...mas demorei um tempo para entender essa percepção. Estava confuso, não me mexia, só movimentava os olhos. Depois a cabeça, aos poucos. A Morte havia me deixado para uma outra ocasião. A essência da Vida ainda habitava meu ser, e não me abandonou. O resto não importava mais...
A disputa entre Vida e Morte no leito do hospital
E isso causou uma verdadeira histeria entre todos, equipe médica, enfermeiras, técnicos de enfermagem..até as faxineiras que limpavam o quarto onde estava hospedado. E de "guerreiro" passei a receber outra alcunha: "Highlander - Guerreiro Imortal". Pois havia vencido a Morte! 
Não entendia o porque do apelido, ninguem havia me contado, talvez por sigilo médico, sei lá, pois só me foi informado que havia entrado em coma por cinco dias. Não me falaram dos 56 segundos fatais. Só descobri isso dois anos depois, após revelação pela mesma Anestesista, que assitiu a uma cirurgia de outro parente da mnha familia, que eu acompanhava no mesmo Hospital. Ela me revelou tudo, e ambos ficaram assombrados...ela por ser atéia, e eu...por saber que havia caminhado pelo "Vale da Sombra da Morte" e passando então, finalmente, entender o porque do Highlander...

E depois de toda essa via crucis, de uma segunda chance que tive, em Dezembro de 2010, justamente um dia antes do Natal, recebi minha última alta do hospital. Pra não mais retornar. Ah, não sem antes levar pra casa uma Trombose que apareceu no pescoço por conta da NPT. Fui para casa ainda com um buraco na barriga, e com a nasoenteral. Mas depois do renascimento, acreditei que ficaria curado sem aquela parafernália no nariz, que incomodava pacas. Arranquei tudo e avisei ao médico que apostava na recuperação me alimentando normalmente pela boca. E que saudades de comer como todo mundo...

Hoje estou aqui, relatando isso tudo e esperando que ninguém passe por tudo o que passei. Gente de vários segmentos religiosos me falaram coisas relacionadas a esta segunda chance. Grupos de oração se formaram no hospital, enquanto estive lá, para intercederam por minha vida. E era gente reunida de caminhos diferentes: evangélicos, católicos, espíritas, até budistas. Nunca presenciei nada  igual. E cada uma dessas pessoas, segundo a doutrina de sua religião, me confabulou que Deus havia informado a elas que "não era meu tempo ainda". Elas mesmas se espantaram com isso. Como poderia gente de religião diferente receber a mesma "visão", "insight" "profecia" ou o nome que seja, sobre a mesma pessoa? Foi sem dúvida uma experiência para mim, mas também para elas. Fiquei até conhecido por algumas Técnicas em Enfermagem como o "homem que voltou da Morte", além é claro, do apelido de Highlander por outros. E meses depois, já recuperado, fui realizar exames de acompanhamento na Rede Labs D'Or, em Madureira, quando uma das funcionárias me reconheceu do tempo de internação, e levou um baita susto: "não é possível. Eu vi você morrer no hospital!!!". Então, eu disse pra ela: 

-Sinto desaponta-la, mas a Morte não me quis. Fazer o que, né?
Mas isso não é pra qualquer um. Somente para aqueles que, como eu,  tiveram uma segunda chance...

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